Estará a Indústria Farmacêutica por trás desta campanha?

Resposta rápida: não.

Resposta completa: esta campanha, a 10:23, está focada na homeopatia, e no desejo de informar a população mundial sobre o que isso é (e não é) e sobre o que isso faz (e não faz). Em Portugal, foi criada por um grupo de cidadãos que se juntaram pela primeira vez para o efeito. Inclui pessoas das mais variadas áreas, mas não inclui pessoas que trabalhem na indústria farmacêutica. Também não recebemos dinheiro de ninguém, e o dinheiro que tivemos que gastar no evento (produtos homeopáticos para a ‘overdose’, t-shirts, cartazes, transporte) saiu do bolso de cada um de nós. A minha conta bancária adoraria receber cheques chorudos da Big Pharma mas eu não aceitaria, de qualquer maneira, nem ninguém – tenho a certeza – do nosso grupo.

Apesar de – ou se calhar precisamente por – a campanha se centrar apenas na homeopatia, algumas pessoas criticam o facto de não falarmos do que está errado com a indústria farmacêutica. Que fique bem claro: toda e qualquer atividade humana vai conter erros, e a indústria farmacêutica não está livre deles, muito pelo contrário. Eis um exemplo que apareceu hoje na imprensa portuguesa:

EUA forçam países pobres a não usarem genéricos

Esta notícia mete política e propriedade intelectual pelo meio, o que a torna um pouco mais complexa, mas aqui fica o link na mesma.

Por outro lado, sugiro a excelente coluna que Ben Goldacre, médico, escritor e cético inglês, tem no The Guardian. Chama-se Bad Science e está disponível online (em inglês). Nela, ele critica fortemente tudo aquilo que se baseia em “má ciência”, isto é, tudo aquilo que, sob a roupagem de termos científicos, é na realidade anti-ciência. E está sempre a malhar na indústria farmacêutica, quando esta comete esses erros, abusos e deturpações.

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3 Responses to Estará a Indústria Farmacêutica por trás desta campanha?

  1. author says:

    Subscrevo o que diz o Pedro Homero e acrescento apenas que, Ben Goldacre, que é médico psiquiatra, escreveu um livro que vem no referido site (www.badscience.net) que na edição portuguesa se chama “Ciência da Treta”.

    Entre outras coisas, como o malhar na indústria farmacêutica, fala de um assunto importante que é por que razão nós, humanos, fazemos tantos erros de julgamento, particularmente no que diz respeito a vermos relações causais onde elas não existem. Um tópico pertinente para entender a Homeopatia, abordado num capítulo apropriadamente intitulado “Porque acreditam as pessoas inteligentes em coisas estúpidas?”.

  2. Ana says:

    É muito fácil comentar. Todos temos esse direito. Mas até aonde vai o conhecimento? Faço parte do grupo de pessoas que formula e produz medicamentos. Não posso continuar a ouvir tanto disparate sem reagir. Tenho 20 anos de experiência profissional e do conjunto de conceitos que me foram transmitidos na faculdade, a grande maioria já são considerados errados e muitos outros introduzidos. Temos que ter a mente aberta para analisar o que nos é demonstrado e capacidade crítica para duvidar do que é omitido. Mas não podemos de duvidar de tudo. Temos que ter uma base para viver e um sentido crítico para evoluir. Mas temos que aceitar os factos. Por mais erros que a indústria farmacêutica cometa, temos de aceitar o que ela faz pelos doentes. Quantos naturalistas já tiveram que aceitar uma quimioterapia? Já conheci alguns. Que não compreendem como foram vítimas de um cancro, possuindo eles hábitos de vida considerados tão saudáveis. E quantos, não sendo crentes na homeopatia, já viram os seus problemas resolvidos. Não conheço os fenómenos científicos que justfiquem a acção dos medicamentos homeopáticos, mas que são vísiveis os seus efeitos, ninguém o pode negar. Não acredito que o efeito seja comparável ao de um placebo porque os bebés não sabem o que lhes estão a administrar, e os papás ansiosos, observam rapidamente os seus efeitos. Todos sabemos que a indústria farmacêutica tem uma grande poder económico nas mãos. Ela precisa de muito dinheiro para gastar em experiências frustantes, precisa de muito dinheiro para demonstrar a segurança dos medicamentos que quer comercializar, e depois ainda para vencer e destronar os medicamentos em uso. Se não fosse toda esta economia em movimento ainda estariamos na pré-história (ainda tratavamos os nossos entes queridos com ervas mágicas – a razão de existência de toda o nosso arsenal terapêutico disponibilizado pela indústria farmacêutica – e não contrariavamos a selecção natural de sobriverem os fortes e de morrerem os fracos cujo organismo era concebido com pequenos defeitos de fabrico, como é o caso dos doentes diabéticos que não produzem insulina).

    Para terminar deixo apenas três pensamentos para reflectirem:
    – A cocaína e a heroína são dois produtos naturais, facilmente obtidos na natureza. Não deixem estas plantas ao alcance dos vossos filhos, nem as tenham no vosso jardim. Elas destroiem o ser humano e são 100% naturais. Desconfiem quando alguém vos diz “Se é natural não faz mal”
    – O nosso organismo para funcionar correctamente precisa de elementos de origem vegetal, animal e mineral. Alguns são transformados para serem mais agradáveis de ingerir e por isso todos temos uma cozinha nas nossas casas. O nosso planeta também nos oferece substância de origem vegetal, animal e mineral que quando transformadas correctamente nos podem devolver a saúde quando geneticamente, acidentalmente ou intencionalmente (quando temos hábitos de vida pouco saudáveis) a perdemos. Para isso, a industria farmacêutica, nas suas cozinhas (laboratórios) transformam os elementos da natureza (ainda não fomos buscar nada à lua) em medicamentos (também podem ser as famosas tisanas tão úteis nos pequenos problemas do dia-a-dia) mais agradáveis de ingerir (por via oral) ou adequados à via de administração indicada. Com os medicamentos que a industria farmacêutica nos propociona, vamos poder continuar a viver as experiências de vida com que sonhamos e que são a razão da nossa existência. Quem nunca tomou um medicamento na vida?
    – Qual é a profissão que não comete erros. Eles são úteis na evolução pois são também um método de aprendizagem. Muito caro para todos mas são uma das formas mais eficientes de aprender o que não deve ser feito como foi feito.
    Desejo muita saúde a todos.
    Ana Santos

  3. Pedro Homero says:

    A Ana disse:

    “Temos que ter a mente aberta para analisar o que nos é demonstrado e capacidade crítica para duvidar do que é omitido. Mas não podemos de duvidar de tudo. Temos que ter uma base para viver e um sentido crítico para evoluir. Mas temos que aceitar os factos. Por mais erros que a indústria farmacêutica cometa, temos de aceitar o que ela faz pelos doentes. ”

    Concordo com tudo isso. Até aqui, estamos de acordo.

    Depois disse:
    “E quantos, não sendo crentes na homeopatia, já viram os seus problemas resolvidos.”
    A resposta a essa afirmação está no seguinte link – https://1023portugal.wordpress.com/2011/02/04/os-argumentos-a-favor-da-homeopatia/ – logo no primeiro ponto. Porque algo “parece” que faz efeito não significa que de facto faz efeito.

    Depois disse:
    “Não conheço os fenómenos científicos que justfiquem a acção dos medicamentos homeopáticos, mas que são vísiveis os seus efeitos, ninguém o pode negar.”

    Ana, não os conhece porque não existem; décadas de estudos rigorosos demonstram que os produtos homeopáticos não têm efeito para lá do placebo. Os estudos que afirmam a validade desta prática são de má qualidade (não-aleatórios, não-controlados, etc.) e empalidecem perante toda uma literatura científica que não deixa margem para dúvidas – não há provas credíveis que a homeopatia funcione, e há muitas provas sólidas que não passa de um placebo. Os efeitos visíveis são… o efeito placebo. Mais informação no link que meti acima.

    Em relação ao efeito placebo em crianças ou animais, voltamos ao mesmo – ver o link acima. Quem define se um bebé está melhor ou não é o pai ou educador; a criança vai melhorar, eventualmente, se a doença ou problema for das que eventualmente o nosso corpo cura. A única maneira de confirmar se foi o produto homeopático ou não a fazer efeito é comparar dois grupos de pessoas, semelhantes em tudo excepto no facto de receberem (um grupo) ou não (outro grupo) um produto homeopático. Adivinhe lá o que é que acontece quando esses testes são feitos com rigor?😉

    Depois, muda de assunto e diz:
    “Todos sabemos que a indústria farmacêutica tem uma grande poder económico nas mãos. Ela precisa de muito dinheiro para gastar em experiências frustantes, precisa de muito dinheiro para demonstrar a segurança dos medicamentos que quer comercializar, e depois ainda para vencer e destronar os medicamentos em uso.”

    A indústria farmacêutica tem milhares de defeitos, mas é regulada e fiscalizada de uma maneira que as ditas medicinas-alternativas, nas quais se inclui a homeopatia, não o são.
    Para que um produto homeopático seja vendido ele tem apenas que demonstrar que é seguro. Não tem que demonstrar a sua eficácia.
    Para que um medicamento-a-sério seja colocado no mercado ele tem não só que demonstrar que é seguro, como também tem que demonstrar que é eficaz e, se já existem similares, *mais* eficaz que os que existem, pelo menos para parte da população.
    Vê a diferença de tratamento? Vê o rigor que é exigido de uma indústria, que não é exigido de outra?

    Sabia que muitos homeopatas não acreditam na inoculação, são contra as vacinas e sugerem aos seus clientes para não vacinarem os seus filhos, mas antes que usem produtos homeopáticos que, na maioria dos casos, não têm sequer *uma só molécula* de um produto que *mesmo que lá estivesse, naqueles comprimidos*, nunca demonstrou que curasse ou prevenisse a doença em questão?
    Sabia que há homeopatas a vender os seus produtos como prevenção e cura para a malária, formas de cancro e diabetes? Não a repugna, isso?

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